A escuridão livra-me pouco a pouco dessa estranha que sou eu mesma


16/06/2007


De segunda a Sábado

Eu trabalho quase nove horas por dia com gente, cada pessoa com a sua característica física e pessoal. Na sua maioria elas contam a história da vida para simplesmente relatar o porquê do produto adquirido não estar funcionando direito, ou para dizer que o cheque voltou (essas são as histórias mais longas). Nós vendedores somos quase psicólogos, escutamos, concordamos (se discordar o papo vai mais longe), e apoiamos, nos solidarizamos, e sempre sabemos involuntariamente o que acontece a nossa volta. Mas sempre acontece algo inusitado. 

 

_Bom dia!

_Bom dia como vai a sua tia, embaixo da pia chupando melancia!

_ Espero que ela esteja bem.

 Quem disse que ele é engraçado a cada frase para a venda do produto, o cliente responde com uma rima.

_ Oi fulana, como vai, faz tempo que você não aparece por aqui.

_ E faz tempo mesmo, porque da última vez você estava mais magra. Isso ai é um cabelo branco?

Dou aquele sorrisinho amarelo, e o que posso te ajudar e segue-se a compra.

  

Sempre vem aqui uma senhora ela tem 57 anos e é solteira, mas não desistiu de achar o amor, ela freqüenta os bailes da terceira idade, esta fazendo a oitava série, faz curso de pintura, bordado, trabalha fora, ela é uma graça toda vez que recebe uma cantada ela vem me contar sabe com aquele jeitinho simples e os olhinhos brilhando, agora ela esta paquerando e conhecendo um senhor de 60 anos, ele já até pediu beijinho, mas ela só pegou na mão.

Tem a turminha do fiado, eu não sei por que nas cidades pequenas todo mundo acha que você é obrigada a vender fiado, mesmo sabendo que você tem ordens de não o fazer, você nega uma vez, a pessoa reclama, você nega duas, ela tira o dinheiro do bolso e paga a vista só pra te provar que não precisa de favores, vai entender.

O pessoal esotérico que tira as  fotos contra o sol, contra a lâmpada e cisma que são seres de outro planeta, seres iluminados, nossa umas teorias malucas sobre o tempo, sobre crianças, e ouvimos atentamente, vai que ela resolve explicar tudo de novo.

 È incrível como as pessoas simples na sua maioria analfabetas que vem da zona rural uma vez por mês para receber os programas sociais do governo e aposentadoria, a honestidade, se ficar te devendo R$1.00 mês que vem ele te paga, tem coisa que já nem lembro, combinado é combinado e acabou. Agora em contra partida quanto mais tem mais sovina é, uma coisa é pedir desconto outra bem diferente é por preço no produto, um fazendeiro aqui da região já peguei o jeito dele se o produto custa R$18.00 eu peço R$20.00, ele pede desconto faço pelos R$18.00, ele coloca R$15.00 no balcão e vai embora satisfeito porque pagou o que queria, eu mais alegre ainda porque era o preço com o desconto. A vida tem dessas coisas não chega a ser uma trapaça, é o “jeitinho brasileiro”.

Ontem veio um rapaz que faz um trabalho voluntário lindo ele com mais cinco pessoas começaram com três crianças depois de quatro meses já auxiliam trinta crianças com apoio psicológico, pedagógico, cidadania, ecologia e musica. As crianças não são carentes somente de recursos básico mas de atenção, teve uma menina de 5 anos que o adotou como pai, uma menina de 13 anos esta grávida de oito mês do padrasto, uma criança abusada pelo avó, são guerras aonde as crianças não possuem armas para se defenderem. A menina de 13 anos, o juiz deu uma liminar para o aborto ela recusou, e escreveu uma linda redação sobre a família, as brincadeiras com os irmãos menores e se considera feliz.

Esta câmera fotográfica tem oitenta anos foi trazida da Alemanha por uma família refugiada, pertenceu ao pai de um cliente, usa filme 135 mm é o filme que se utiliza em câmera atuais esta em perfeitas condições de uso com regulagem de diafragma. Uma relíquia onde esta tudo digitalizado.

E assim se passa nove horas do meu dia, de segunda a sábado.

 

 

Escrito por rosa às 13h42
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13/06/2007


...

 

 

Língua dos anjos

 

Como se falam de amor,

Morre-se por amor,

Renasce-se pelo amor,

Sorri-se de amor,

Uma ilusão implantada,

Uma euforia sem explicação.

“Um contentar-se de contente”

Há quem diga que é a língua dos anjos.

Acredito que seja por isso quase inatingível.

Juntar o sagrado ao profano?

O sentimento e a carne?

E no final se fuma um cigarro,

O outro vira pro lado.

E os anjos nos velam!

E deve nos achar um bando de idiotas,

Tentando entender o que é preciso apenas sentir.

 

 

Obs.: Eu não fumo,o cigarro é somente uma analogia, sabe essas coisas que vemos no cimena. Abraços a todos Rosa. 

Escrito por rosa às 17h50
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12/06/2007


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935

Imagem: Rodin

 

Escrito por rosa às 17h10
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11/06/2007


Cecília Meireles

Retrato.

 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

 

 

Uma singela homenagem ao dia da língua portuguesa comemorada 10/06.

 

Escrito por rosa às 15h45
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